Por aqui, em meio aos dias e suas diferentes estações,
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
(…) Alberto Caeiro
Caríssima Letícia…
Sim, preciso dizer que não gosto do mês de agosto e tenho pretéritos suficientes para enfatizar esse não gostar e nada tem a ver com as ilusões humanas que cantam alto por aí, para essas eu dou de ombros e tu bem sabes desses meus gestos entre um gole de chá e outro…
A manhã por aqui segue com os primeiros cantos de pássaros e sua missiva chegou por aqui como se fosse trazida por um pássaro num vôo manso, lento, gostoso cujo repouso é minha janela (ainda fechada) mas pássaros são pássaros e eles entram imaginação adentro…
Pensei nos próximos dias e nesse nosso encontro. O sorriso percorreu os lábios e desenhou cenários inusitados. Claro que eu já pensei num cardápio e do discurso junto a mesa. É hábito antigo receber os amigos junto a mesa da cozinha, preparar os pratos e dialogar sorrisos, palavras, olhares. A dona Borboleta sabe disso. A menina de asas também. A moça das tintas também. Mas você só ouviu falar e então será sua vez de saber… E fiquei imaginando o que fazer, que ingredientes escolher. Que chá tomaremos e qual livro será escolhido para poetizar tal momento. Está tudo distante, o amanhã não me alcança e eu me vejo espiando horizontes: um mar inteiro sussurra suas ondas em minha janela…
O sorriso existirá com toda certeza. O abraço também, mas imaginá-lo não me cabe porque sempre que a possibilidade se desenha, o real me alcança e o imaginário se perde. Odeio isso, mas não consigo transpor esse delírio em minha pele…
Por enquanto, o meu passo é de espera.
bacio



