Porto Seguro, dias de inverno em estação reticente...
Querida Letícia,
Hoje o dia amanheceu nublado com ventos fortes por todos os lados, dia típico de um inverno no litoral, onde os dedos pedem um lápis e os olhos um bom livro. A minha mesa, como sempre, está cheia de papéis que se misturam entre rascunhos de um poema antigo e tantos contratos e orçamentos profissionais. Começo a ensaiar uma missiva endereçada a ti, e confesso, perco-me em todas as linhas. Inicio a minha carta e fico aqui a imaginar qual a estação do ano que te prende, a música que estás a ouvir e tantas outras coisas que para mim são desconhecidas, e, continuando as minhas confissões, encontro-me perdida no meio das cartas...
As palavras, elas ficaram grudadas nos dedos enquanto eu viajava pela atmosfera da minha sala tentando achar uma maneira de compor letras. A verdade é que temos um contato restrito, tímido, eu diria, e talvez por isso as palavras ficam sempre engasgadas num conto incompleto. Sigo alguns caminhos traçados por tuas letras e deparo-me com interrogações que eu mesma crio. É, eu sou assim, vou me aproximando aos poucos e depois faço morada, ou melhor, invento ninhos, já que sou “menina de asas”...
Eu me aproximo aos poucos, pois sei que nós temos muito que compartilhar, principalmente, o que diz respeito a letras, diários, estações, chás... Enquanto chove lá fora, eu fico aqui pensando em como seria delicioso escrever missivas numa biblioteca. E é assim que penso em ti. Você e todos esses silêncios ao seu redor, você próxima a todas as histórias escritas em livros que enfeitam uma sala... Deve ser perfeito esconder-se da chuva numa biblioteca.
Quantos mundos existem ai próximo a ti? Quanto de silêncio existe num dia de chuva dentro da casa dos livros?
Como é delicioso degustar um chá, rabiscar alguns papéis no silêncio de um salão onde cheira livros. Acredito que bem próximo a ti existe uma ternura especial porque você convive com tantos mundos e tantas histórias que às vezes pode-se até confundir com personagens de livros antigos. E como eu sei de tudo isso? – Eu sempre leio os rodapés dos teus e-mails, e assim, tento decifrar palavras...
Agora o telefone toca pausando a minha missiva. Há um mundo lá fora me chamando, e aqui deixo a porta aberta para que outras palavras apresentem-se diante de nós. Sei que breve um encontro e mais letras estão por vir.
Um afetuoso abraço,



